
Ah, Avenida Paulista…
Ela era cantada por Peirão de Castro, Milton Peruzzi e Zé Italiano na TV e Rádio Gazeta AM como “a mais paulista das avenidas”.
Para mim a mais mineira de todas!
Foi a primeira avenida que pisei em São Paulo, em 1972.
Com uma malona marrom que carregava trocando de mãos, desci na esquina da Paulista com Pamplona ao parar no ponto do ônibus Júlio Prestes–Vila Mariana.
Foi quando vim de vez para a “Paulicéia” para estudar jornalismo no Objetivo na Av. Paulista, nº 900 e tentar vencer na vida.
Minha vida bem à deriva, vim na base do “seja o que Deus quiser”.
E Ele quis.
Desci a Pamplona, domingo cedo, maio de 72, e fui para a Alameda Jaú onde funcionava romanticamente a “República dos Muzambas”.
Éramos uns 18 em um casarão da muzambinhense família Gaspar.
A SUPERO, minha faculdade, hoje UNIP, era na Av. Paulista e por ela andava todo dia.
Uma vez por mês ia ao Cine Gazeta, Gazetão ou Gazetinha.
Até que o dinheiro de minha tia Antonia não deu conta para quitar o trio faculdade-pensão-comida.
Entrei na Rádio Jovem Pan, mas lá na Av. Miruna, 713, Aeroporto.
Deixei a Paulista assim como a própria Faculdade Objetivo que se transferiu para a rua Luís Goes.
Mas em 1977 a rádio saiu da Zona Sul e veio exatamente para a querida… Av. Paulista!!!
E o Seo Tuta, dono da Pan, só comprou o 24º andar para instalar sua emissora porque o número do prédio era… 807!
Ele sempre teve verdadeira paixão pelo 7, o número da TV Record no seletor dos velhos televisores.
E isso o saudoso Fernando Luiz Vieira de Mello sempre contava.
Aí, nela, na Av. Paulista, já estou há… 38 anos, no todo, e nunca mais a abandonei.
Trabalhando na Pan ou por mim mesmo e até morando dois dias por semana.
Tudo em escritório comercial-redação de Portal-apartamento no interior do prédio nº 807 em seus 24º, 3º, 14º, 15º, 21º ou 22º andares.
Testemunhei tudo que nela aconteceu em quase quatro décadas.
Comemorações de futebol, pacíficas ou não, o incêndio do edifício “Grande Avenida”, em 1981, quando de meu melhor trabalho como repórter, o nascimento e a vida da “Parada Gay” e todas as manifestações populares possíveis e imaginárias nesses anos todos.
Até para protestos contra ou a favor do “sabor do chuchu”.
Tudo acontece na Av. Paulista, o Líbano de São Paulo.
No Oriente Médio árabes e judeus nunca se entendem e sempre sobra para o belo Líbano, tantas vezes destruído.
Enfim, achava que já tinha visto tudo o que era possível na “Manhattan de São Paulo”.
Ledo engano!
Nesses últimos 15 dias, por força de acúmulo de eventos corporativos que apresento, não voltei pra casa, fora da capital.
Fiquei na Paulista mesmo e vi, do alto e mais ou menos de longe, o caos do caos.
E o olho humano goleia a foto e o olhar da TV.
Aqui de cima, vidros duplamente blindados contra som, tive a sensação de quem vive guerra civil em qualquer lugar do mundo, como hoje na Síria.
PM batendo no povo e o povo batendo em PM!
E este confronto PM x Povo na Avenida Paulista é igual briga de família: ninguém tem 100% ou 0% de razão.
Todos brasileiros, irmãos.
Como vejo tudo pelo olhar do futebol, fiquei imaginando até os 11 titulares de Felipão trocando socos, tiros e pontapés com os 11 reservas em “treino” mostrado ao vivo pela TV.
Mas o pior foi quinta-feira.
Subia a rua Bela Cintra para a Paulista e vi de perto os protagonistas em cenas comandadas pelo capeta, um capeta em grande fase, esfregando as mãos e instigando e atentando a todos.
Os PMs alucinados e assustados, o povo-povo desesperado ao volante ou à pé e os manifestantes com um olhar “convicto–zumbístico-obstinado”.
Gente de boa aparência, longe dos perfis dos “jogadores” que “atuam” nos clássicos de José Luiz Datena e Marcelo Rezende na TV.
Cortei alamedas, sai da muvuca, desviei de sacos de lixo, tábuas e de vasos quebrados e cheguei em meu santo prédio, parceiro desde 1977.
Ainda fiquei vendo tudo mais um pouco do 22º andar até que três de meus repórteres, com medo e “sitiados” na redação, resolveram “criar coragem” e ir embora.
A querida Paulista foi ficando vazia, a madrugada chegava, carros desaparecidos do cenário e sobrou o sereno no asfalto molhado.
Eram as lágrimas da Paulista, a avenida que mais chora no mundo.
Mas que pra mim ela não para de sorrir e jogar mais do que o Santos de Pelé.
Tanto que, em minha vida, ela goleia até Muzambinho-MG por 38 a 21 anos!
Santa Paulista, a artéria que as pessoas nunca se cansam de entupir!
Abaixo, lembrança dos meus tempos nas Faculdades Objetivo (antigo SUPERO), com meu caderno do Vestibular de 1972.
