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Blog do Milton Neves

Maria Esther Bueno e Éder Jofre, injustiçados

Milton Neves

A nossa Estherzinha, a Rainha de Wimbledon e do tênis, estava internada em difícil luta pela vida no Hospital 9 de Julho.

Precisava de um drop-shot raro, milimétrico e improvável lá do fundo da quadra em ponto 99% perdido depois de levar um violento forehand da adversária, a doença chamada câncer.

Anos 60: Maria Esther em ação no Torneio de Wimbledon 

Ela já tinha feito isso em “milhares” de oportunidades nos anos 50 e 60.

Mas, dessa vez, não deu…

Maria Esther, maior tenista brasileira em todos os tempos, morreu nesta sexta-feira (08), aos 78 anos, após longa luta contra um câncer de boca que desceu para o ombro e posteriormente para as costas.

Já Éder Jofre é até mais velhinho do que a agora saudosa Maria Esther, mas, graças a Deus, ele tem um bom estado de saúde.

Éder Jofre segura Maria Eduarda, sua netinha, em dezembro de 2016

Ela seguia e ele segue lutando e vivendo em São Paulo, ambos praticamente esquecidos.

O brasileiro e a grande mídia só se lembram para valer dos nossos ídolos do passado quando eles estão no hospital, na miséria ou no seu próprio velório.

Ao contrário dos “frios e arrogantes” americanos e ingleses.

Pois nos EUA Éder Jofre é reverenciado como um Muhammad Ali dos pesos-galos e na Inglaterra Maria Esther Bueno era uma paixão nacional e foi até comentarista da célebre BBC.

Maria Esther Bueno sendo homenageada durante o US Open de 2014

E experimentem ver na TV americana “Classics Sports” ou “Encore Sports” e confirmem.

Os Éders, Pelés e Marias Esther deles, desde o branco e preto a partir dos anos 30 ou 40, seguem vivos nadando, sacando, correndo, arremessando, lutando e até fazendo propagandas atuais, mesmo vivendo no céu.

“Quem dá as costas para o passado não tem futuro”, cunhou alguém em clichê perfeito.

Adoro os atletas de ontem também porque eles me deram hoje um improvável presente e um inesperado e impensável bom futuro.

Justo eu, um dia definido por um colega de rádio na av. Paulista de “O Rei da Cultura Inútil” por sempre estar falando e dignificando o “jogador véio”, que ganhei de um deles uma placa que é o maior e mais importante troféu que obtive em 50 anos de microfone.

Ah, e quanto troféu me deram…

Escreveu Pio, professor universitário aposentado de Araraquara-SP, o Osmar Alberto Volpe, ex-ponta-esquerda da Ferroviária, do Palmeiras, do Santa Cruz e do Ferroviário-PR: “Enquanto Milton Neves viver, nós, ex-jogadores, não morreremos”!

Pio em setembro de 2017, na Festa de Veteranos do Palmeiras. Foto: Marcos Júnior Micheletti/Portal TT

Tem preço isso?

Claro que não.

E como “preço” é óbvio referencial de dinheiro, saibam que Maria Esther Bueno ganhava 15 libras ao vencer… Wimbledon!!!

Hoje ganham lá milhões de libras entre premiação e patrocínios.

Éder Jofre, campeão mundial, lutava pelo título dos pesos-galos por cotas que hoje qualquer jogador de futebol nota 5.27 de time grande ganha por semana!

Éder Jofre, nosso maior boxeador, comemora um dos importantes cinturões de sua carreira

E Neymar, nos últimos seis meses ganhou, merecidamente, mais do que Pelé em… 25 anos, publicidade incluída.

Ninguém tem “culpa”, é apenas uma questão de época, oportunidade, “azar de ter nascido em anos errados” e, fundamentalmente, pelo surgimento e crescimento do marketing esportivo.

Não havia no Brasil patrocínio nas camisas e nem “Direitos de Transmissão do Futebol pela TV” a partir de 1951.

Pois saibam que, em 1964, após Santos 3 x 2 Portuguesa na Vila, com o Peixe campeão no apito, João Mendonça Falcão, então presidente da Federação Paulista de Futebol, avisou aos Carvalhos donos da Record que, já em 1965, haveria uma cota (ridícula pelos padrões de hoje) para nova cobertura pela TV do então monumental Paulistão.

Contava à exaustão o saudoso e genial jornalista Fernando Vieira de Mello (1929 – 2001) que a direção da Record não aceitou pagar nada, alegando que “sem a TV, o futebol morre”.

E acrescentava: “Com o ‘buraco’ na grade da Record sem o futebol, procurou-se por uma atração substituta que acabou sendo o programa ‘Jovem Guarda’ daquele ‘cabeludinho do Rio ou do Espírito Santo’ que vive aí pelos corredores pedindo uma chance”, falou, sugerindo, o diretor Hélio Ansaldo (1924 – 1997), segundo Fernando, “o Maquininha”.

Fernando Vieira de Mello, um dos maiores jornalistas de todos os tempos

Pois o futebol saiu da TV, seguiu muito vivo e surgiu o programa “Jovem Guarda” do “cabeludinho” Roberto Carlos na grade da Record.

É a vida, vida que será eterna para Maria Esther Bueno e para Éder Jofre na terra ou no céu.

Pelo menos na memória de quem jamais os esquecerá.

      Na Revista `O Cruzeiro´, edição de 14 de janeiro de 1961, Maria Esther Bueno, então com 21 anos, está ao lado de Pelé, de Éder Jofre e de Bruno Hermanny (campeão mundial de caça-submarina)

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