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Blog do Milton Neves

“Esse clube não merece ser chamado de Bambi”, garante autor de livro sobre o São Paulo FC

Milton Neves

TricolorCeleste

Abaixo, confira entrevista do jornalista Cosme Rímoli com Luís Augusto Simon, autor do livro ‘Tricolor Celeste’.

“No Uruguai eu era do Peñarol e odiava o Nacional. Quem é que está ganhando tudo aqui? Palmeiras? Então, a partir de hoje eu odeio o Palmeiras.”

Pablo Forlan aos jornalistas.

“O quê? Sorrir para foto? Não está acontecendo nada engraçado.”

Diego Lugano na sua primeira entrevista em território nacional encarando os fotógrafos.

“Eu era acostumado a comer filé mignon. E beber o mais puro leite do meu país. Tomava quatro litros por dia. E aqui os jogadores faziam a festa com carne de panela na concentração. Eu não conseguia engolir essa comida ruim. Fui emagrecendo, definhando.”

Dario Pereyra explicando o início das suas famosas ‘dolores’…

“Eu tinha oito anos e estava jogando futebol com meus amigos quando o Uruguai foi campeão do Mundo em 1950. Vi a festa toda. Eu disse, não tem importância. Daqui dez anos serei eu quem estará com a camisa uruguaia.”

Pedro Rocha só errou por um ano. Onze anos depois vestia a respeitada camisa bicampeã mundial.

O que os quatro têm em comum?

Nasceram no mesmo país vizinho, têm personalidade saindo pelos poros e jogaram pelo São Paulo.

Foi esse mote: quatro uruguaios que marcaram época no clube do Morumbi que moveu Luís Augusto Simon.

Jornalista esportivo consagrado, acaba de lançar o ótimo livro Tricolor Celeste.

E na véspera de Natal, ele deu uma apaixonada entrevista ao blog.

Qual a importância desses uruguaios na vida do São Paulo? Por que a empatia?

Eles trouxeram personalidade, talento, mas principalmente garra ao clube. O torcedor do São Paulo sempre se identificou com jogadores que davam a alma em campo pelas vitórias. Foi o caso principalmente do Forlan e do Lugano. Já Dario Pereyra e Pedro Rocha ganharam espaço na história pelo talento, pela habilidade. Foram quatro histórias marcantes e que valem ser contadas e lembradas. A primeira edição vendeu rápido demais. Estou contente com o interesse no livro.

Conte uma história que represente bem o espírito uruguaio no São Paulo…

Ah…O que o Forlan fez quando chegou foi demais. Além de escolher o Palmeiras para odiar, ele mexeu com todos quando falou que estava na hora de ganhar, que tinha vindo do Uruguai para ser campeão com o São Paulo. Isso foi importante porque o clube estava em baixa. Fazia 13 anos que não ganhava nada. Foi o período da construção do Morumbi. A chegada de alguém com o peito, com a coragem do Forlan foi fundamental para por fim ao jejum. Ele foi um lateral direito que marcou época. Sua personalidade e seus pontapés foram marcantes. Eu telefonei para o Nei, ponta esquerda do Palmeiras, para saber se ele se lembrava do Forlan. Ele me disse que se lembrava todos os dias. Mesmo passados quase 40 anos. “Basta olhar para as minhas canelas. As marcas das chuteiras deles estão lá”, brincou o Nei. Mas pode ser que seja mesmo verdade. O Forlan era um jogador duro demais, só que representa essa vontade de superação que marca os uruguaios. E isso começou cedo.

Como assim? Conte…

O Forlan estava em casa ouvindo a Copa do Mundo de 1954. A Hungria que havia eliminado o Brasil jogava contra o Uruguai. A partida estava empatada em 2 a 2 quando um jogador uruguaio driblou o goleiro e chutou. Estava chovendo muito e o campo ficou encharcado. A bola parou em cima da risca, no barro. Era a semifinal da Copa. A Hungria acabou vencendo por 4 a 2. Forlan nunca se conformou com aquele lance. Na preparação da Copa de 1974 na Alemanha, ele foi jogar na Suíça. Naquele mesmo campo. Era um treino. Mas ao chutar a bola para as redes ele saiu comemorando. “Foi o gol mais importante da minha vida”, ele disse. Uruguaio bom é assim… A idolatria que ele provocou foi enorme na torcida. Vou dar um exemplo. A filha do então presidente Henri Aydar tinha 12 anos mas era apaixonada por ele. Toda criança via o Forlan como um ídolo, alguém que fez o clube ganhar de novo. E ele deu uma camisa para ela. A filha do presidente do São Paulo ficou tão empolgada que passou a usar a camisa do Forlan por mais de um mês seguido. Tiveram de procurar psicólogo para tratar da menina. A idolatria que ele provocava era nesse nível. Fui ao Uruguai conversar com ele e trouxe várias historias para o livro…

E Pedro Rocha no São Paulo?

Ah…Ele era muito talentoso.  Foi um jogador sensacional. Chutava com as duas pernas, batia falta, cabeceava e era muito inteligente em campo. Foi um dos maiores camisas 10 que o São Paulo teve. Mas dizem que sofreu no começo. Muita gente garantiu que o Gerson não deu espaço para ele. E só depois de muito tempo, ele conseguiu se impor. O Dario Pereyra brinca que o Gerson não tinha de dar mesmo. Ele chegou consagrado, campeão do mundo no México. O Pedro Rocha jogou oito minutos apenas e se machucou. Então não tinha de dar moral, não. Mas o Pedro Rocha foi importantíssimo também no início da década de 70 quando o São Paulo voltou a ser várias vezes campeão.

E o Dario Pereyra?

Ele era um jogador muito habilidoso, versátil. O Minelli brincava com a personalidade dele. Dizia que essa história de não comer no São Paulo era porque foi mimado pela mãe e pela irmã. Mas ele foi sensacional como jogador. Foi um excelente meia que passou a atuar como quarto zagueiro. Tinha a garra uruguaia com o requinte de um meia. Sofreu muito com as contusões, mas quando se recuperou marcou época. Dario ganhou muitos títulos com o São Paulo (Foi bicampeão brasileiro, tetra paulista e formou uma dupla de zaga inesquecível com Oscar. Ficou 11 anos no Morumbi.) E agora, o ídolo de sangue uruguaio mais recente é o Lugano… Esse tem uma história de vida sensacional. Ele vivia ajudando o pai em uma fazenda. Foi descoberto por acaso em uma final de campeonato da várzea no Uruguai. Depois jogou pouco no Nacional. Acabou sendo contratado pelo então (falecido) presidente do São Paulo, Marcelo Portugal Gouvea. Ele trouxe Lugano sem perguntar para o técnico. Por isso virou ele virou jogador do presidente. E o Lugano sofreu…

Sofreu quanto?

Ah…Ele demorou para se adaptar. O Oswaldo de Oliveira não o colocava nem no banco. O Lugano ia para casa e fingia dormir para não chorar na frente da mulher. Ele ia assistir aos jogos e depois ia direto para o CT do São Paulo. Sozinho ficava chutando bola, correndo. Ele queria se aprimorar, mas sabia que fazendo aquilo iria chamar a atenção de todos para ele. Deu certo. Quando entrou no time se impôs. Usando raça, força, virou o espírito da equipe. Isso é tão importante na vida dele que é o capitão da Seleção Uruguaia. Não há um são-paulino nesses tempos que não sinta falta do Lugano.  Ele é um dos grandes ídolos da história do clube.

Qual a história mais emocionante para você escrevendo o livro?

Quando fui entrevistar o Pedro Rocha. Ele está passando por um sério problema de saúde. Tem dificuldades para falar e para se locomover. Eu levei o meu irmão. Ele não parava de chorar olhando o Pedro Rocha. Não era de tristeza. Era de emoção por estar na frente de um grande ídolo. Ninguém vai tirar o carisma de Pedro Rocha. Eu percebi isso olhando para o meu irmão.

Como você explica a decadência do futebol uruguaio?

São vários fatores. O primeiro foi que eles acreditaram na velha mística da camisa celeste. O Uruguai passou a desprezar esquemas táticos e passou a jogar só na garra, vontade. Assim não vai para lugar algum. Depois o fato de o país ter só três milhões de habitantes. O universo de jogadores é muito restrito. E o fator mais importante está no êxodo dos jogadores. Os clubes estão enfraquecidos porque atletas vão embora com 12, 13 anos. Não há força financeira para dizer não. E o futebol uruguaio acaba esfacelado, fraco. Uma pena.

Mas mesmo assim você indicaria hoje um jogador uruguaio ao São Paulo?

Há sim. Um zagueiro chamado Coates no Nacional. Ele é um beque de 19 anos e mais de 1m90.  Tem muito potencial. Já sentou no banco da Seleção Uruguaia contra a Costa Rica. O São Paulo deveria apostar já em mais esse uruguaio. Como é que um clube que é marcado por esses uruguaios com tanta garra pode ser chamado de de Bambi? Essa é umas maiores absurdos do futebol brasileiro. O Vampeta começou com essa bobagem e acabou pegando pela rivalidade. Foi uma maneira dos adversários invejosos atingirem o São Paulo. Mas é injusto demais. Só quem não conhece a história do São Paulo tem a coragem de chamá-lo de Bambi. Um clube que teve Forlan, Dario Pereyra, Pedro Rocha e Lugano não pode nunca ser chamado de Bambi. Nunca…

Opine!!!